efletiu sobre como aqueles nortenhos eram
um povo estranho, e já não era a primeira vez que o fazia.
- O homem morreu bem, posso lhe assegurar - disse Ned.
Tinha na mão um bocado de couro oleado com o qual fazia
percorrer com leveza a espada enquanto falava, polindo o
metal até soltar um brilho escuro. - Fiquei contente por causa
de Bran. Teria ficado orgulhosa dele.
- Estou sempre orgulhosa de Bran - Catelyn respondeu,
observando a espada enquanto ele a esfregava. Conseguia ver
as ondulações profundas do aço, onde o metal fora dobrado
sobre si próprio cem vezes durante a forja. Catelyn não sentia
qualquer amor por espadas, mas não podia negar que Gelo
possuía sua beleza. Tinha sido forjada em Valíria antes de a
destruição ter caído sobre a antiga cidade franca, quando os
ferreiros trabalhavam seus metais tanto com feitiços como
com martelos. Tinha já quatrocentos anos, e era tão aguçada
como no dia em que fora forjada. O nome que ostentava era
ainda mais antigo, um legado da era dos heróis, quando os
Stark eram reis no Norte.
- Foi o quarto este ano - disse Ned sombriamente. - O pobre
homem estava meio louco. Algo lhe incutiu um medo tão
profundo que minhas palavras não o alcançaram - suspirou. -
Ben escreveu-me dizendo que a força da Patrulha da Noite já
não tem mil homens. Não são só deserções. Tem também
perdido homens nas patrulhas.
- São os selvagens? - ela perguntou.
- Quem mais poderia ser? - Ned ergueu Gelo e observou o aço
frio ao longo de todo seu comprimento. - E só vai piorar. Pode
chegar o dia em que eu não tenha escolha a não ser reunir os
vassalos e marchar para o norte a fim de lidar de uma vez por
todas com esse Rei-para-lá-da-Muralha.
- Para lá da Muralha? - a idéia fez Catelyn estremecer.
Ned viu o terror no seu rosto.
- Mance Rayder não é nada que devamos temer.
- Há coisas mais escuras para lá da Muralha - ela olhou de
relance a árvore-coração às suas costas, a casca clara e os
olhos vermelhos, observando, escutando, pensando seus
longos e lentos pensamentos.
O sorriso dele era gentil.
- Você ouve em demasia as histórias da Velha Ama. Os Outros
estão tão mortos como os filhos da floresta, desaparecidos há
oito mil anos. Meistre Luwin lhe diria que nunca sequer
chegaram a estar vivos. Nenhum homem vivo alguma vez viu
um.
- Até hoje de manhã, nenhum homem vivo tinha visto um
lobo gigante - recordou Catelyn.
- Já devia saber que não se pode discutir com uma Tully - ele
disse com um sorriso triste e devolveu Gelo à sua bainha. -
Não veio até aqui me contar histórias de embalar. Sei bem
como gosta pouco deste lugar. Que se passa, minha senhora?
Catelyn tomou nas suas a mão do marido.
- Hoje chegaram dolorosas novas, meu senhor. Não quis
incomodá-lo até se ter purificado - não havia maneira de
suavizar o golpe, e ela o disse sem rodeios. - Lamento tanto,
meu amor. Jon Arryn está morto.
Os olhos dele encontraram os dela, e Catelyn viu como lhe
custou, como sabia que custaria. Na juventude, Ned tinha
sido acolhido no Ninho da Águia, e Lorde Arryn, que não
tinha filhos seus, tinha se tornado um segundo pai para ele e
para o seu outro protegido, Robert Baratheon. Quando o Rei
Aerys n Targaryen, o Louco, exigira suas cabeças, o Senhor
do Ninho da Águia erguera em revolta os seus estandartes da
lua e do falcão em vez de entregar aqueles que jurara
proteger.
E um dia, há quinze anos, seu segundo pai tinha se
transformado também num irmão, quando ele e Ned se
juntaram no septo de Correrrio para desposar duas irmãs, as
filhas de Lorde Hoster Tully,
-Jon... - Ned disse. - Esta notícia é segura?
- Trazia o selo do rei, e a carta vinha escrita na caligrafia do
próprio Robert. Guardei-a para você. Diz que Lorde Arryn
partiu depressa. Nem Meistre Pycelle pôde fazer alguma
coisa, mas trouxe o leite da papoula, para que Jon não ficasse
por muito tempo em sofrimento.
- Isto foi uma pequena misericórdia, suponho - ele disse.
Catelyn via o pesar em seu rosto, mas mesmo nesse momento
seu primeiro pensamento era-lhe dedicado. - A sua irmã -
disse Ned. - E o filho de Jon. Que notícias há deles?
- A mensagem dizia apenas que estavam bem e que tinham
regressado ao Ninho da Águia - ela respondeu. - Eu preferia
que tivessem ido para Correrrio. O Ninho da Águia é um
lugar alto e solitário, e sempre foi o lugar de Jon, não deles. A
memória de Lorde Jon assombrará cada pedra. Conheço
minha irmã. Ela precisa do conforto da família e dos amigos
ao seu redor.
- Seu tio espera no Vale, não é verdade? Ouvi dizer que Jon o
nomeou Cavaleiro do Portão. Catelyn anuiu com a cabeça.
- Brynden fará por ela e pelo rapaz o que puder. E algum
conforto, mas mesmo assim...
- Vá ter com ela - Ned tentou animá-la. - Leva as crianças.
Encha aqueles salões de ruído, gritos e risos. Aquele rapaz
precisa de outras crianças a sua volta, e Lysa não deve ficar
só na sua dor.
- Gostaria de poder fazer isso - disse Catelyn. - A carta trazia
outras notícias. O rei viaja para Winterfell à sua procura.
Ned precisou de um momento para ver o sentido da